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quarta-feira, 29 de março de 2017

"Agora que sinto amor" d'"O Pastor Amoroso" - Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) dito por Ricardo Carriço



  • Agora que sinto amor
    Tenho interesse no que cheira.
    Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
    Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
    Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
    São coisas que se sabem por fora.
    Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
    Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
    Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
    23-7-1930
    “O Pastor Amoroso”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

"Quero Ser Teu" - João Paulo Rodrigues

Toquei a tua pele macia
Como brisa que passa, e arrepia
Naveguei teu corpo norte a sul
Mergulhei nos teus olhos, qual mar azul

Dei-te a conhecer meu ser
Entrei em ti, pra tornar a nascer

Foste tu que me possuiste
Tomaste conta deste corpo, outrora triste
Quiseste ver por dentro, eu deixei
Ensinaste-me o amor, eu amei

Afagaste-me o cabelo, e eu dormi
Subi ao ceu, sonhei e descobri

QUE EU QUERO SER TEU
Voar a teu lado no ceu e descobrir
O prazer de ser teu
O prazer de ser teu

Bebi dos teus labios, ao luar
Chorei ao sentir o teu beijar
Emergi das aguas ao amanhecer
Notei o teu perfume, senti-me morrer

Escalei montanhas pra te alcançar
Mas em mim no escuro so por te amar
Alcancei a luz quando te vi
Nasci de novo, acordei renasci

PORQUE EU QUERO SER TEU
Voar a teu lado no ceu e descobrir
O prazer de ser teu
O prazer de ser teu

PORQUE EU QUERO SER TEU
Voar a teu lado no ceu e descobrir
O prazer de ser teu
O prazer de ser teu
O prazer de ser teu.....

Composto por João Paulo Rodrigues

quarta-feira, 28 de março de 2012

"Como afundar" e "Devagar" - Ornatos Violeta

COMO AFUNDAR
o amor foi entrando em nós sem mentir
vi-te erguer no meu suor e subir
eu senti o amor tocar no avesso da saudade
e com ela a dor de não chorar

e é como ver o chão sob nós
sentir que é no amor que eu consigo encontrar
o que eu sou

e é como afundar nosso mundo em dor
e não querer acordar

minha flor, meu sol, eu vou estar sempre aqui
se eu lembrar a dor será também por ti
mas eu, eu não vou mudar

e a dor foi entrando em mim sem mentir
vi-te enfim erguer do chão
e sorrir
como a construir o meu fim

estão a bater à porta
dizem ser teus amigos
dizem vir da parte interna dos ouvidos

a noite entrou de passagem
sem nos levar
boa viagem
boa viagem

isso é como afundar nosso mundo em dor
e não querer acordar
e tu não vês?
(Manel Cruz/Ornatos Violeta)

DEVAGAR
Se o vento não mudar
vou dar até sentir
que há uma razão para crer
que é bem melhor existir

eu sei
não vejo a luz em mim
tão pouco em mais alguém
só quis tocar o céu
não quero mal a ninguém

eu sei
diz-te a canção do medo
vê se um dia o tempo não vos traz
mas perde a noção do tempo
quando eu amo é sempre devagar

não vejo a luz em mim
tão pouco em mais alguém
só quis tocar o céu
não quero mal a ninguém

eu sei
diz-te a canção do medo
vê se um dia o tempo não vos traz
mas perde a noção do tempo
quando eu amo é sempre devagar
(Manel Cruz)

Ouvir in CD Ornatos Violeta INÉDITOS/RARIDADES (P)(C)2011 Universal Music Portugal, SA

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"Uma “missiva secreta” escrita pra você…" por Lu Guedes

Uma “missiva secreta” escrita pra você…
por Lu Guedes

Sentei-me aqui para ler o horizonte e a varanda começou a contar-me de ti em meio aos seus contornos antigos. Tem tanto de mim aqui nesses cantos. Tem tanto de outras pessoas, algumas delas já se foram. Outras apenas passam por aqui quando não tem outros lugares para ir. Tanto desse lugar já está em repouso, em silêncio e não sei se irá despertar. Creio que o sono profundo será seus sons daqui pra frente. Sinto na pele um anúncio de despedida. Ele parece acenar para mim com todos os seus pretéritos.

Os degraus ali debaixo contam lendas sobre uma menina e seus cachos que nunca tinham ido muito além de meia dúzia de esquinas até chegar até aqui dias antes do primeiro inverno branco de sua vida. Contam também encontros de braços que se vestiam de forma simples e natural. Sorrisos surgiam em meio a palavras carinhosas ofertadas por estranhas meninas das quais os nomes pareciam conhecidos como se o vento falasse delas há tempos… Falam ainda de um velho homem de aparência redonda e amável que movimentava todos os músculos de seu corpo quando gargalhava e levava todos com ele porque aquele som era contagiante. Ele se foi num dia de chuva, como gostava, cavalgando; estava ele em busca de um cavalo assustado, na certa iria acalmá-lo e traze-lo de volta pra casa. Ele sabia como poucos o que eles diziam e pobre daquele que dissesse “cavalos não falam nono” ele nada dizia, mas seu silêncio era feito faca afiada a atravessar as entranhas. Gostava daquele olhar livre de maldade, vestindo apenas descaso. Acho que herdei isso dele. Gosto de pensar que sim…

A casa agora está vazia, silenciosa. Falta o cão a andar de um lado para o outro e sinceramente faltam muitas outras coisas também. Já não é mais como antes. É apenas uma casca com recordações minhas e de tantos outros. Mas as últimas visitas parecem ter ofendido todas essas memórias. Lembro de quanto essa varanda reunia dúzias de olhares, centenas de sorrisos e a felicidade daquele homem que tinha ali naqueles movimentos a sua realização. Ele era feliz na maior parte do tempo e gostava da casa cheia, de amigos, mas preferia os cavalos, como eu prefiro os cães. Tem uma foto dele ao lado da lareira, é onde ficam as fotos das pessoas que já se foram. Uma alusão ao fogo e sua perversa motivação. Tudo dura pouco, não é mesmo? As coisas se acabam e você nem se dá conta disso. Quando abre os olhos numa manhã, percebe a casa vazia, ausente de passos e mesmo assim espera. Fica a centímetros da porta de entrada esperando que todos voltem; mas o passado não é um ioiô e só volta em partes, nada físico, apenas metafísico….

E a paisagem se perde do lado de dentro da gente. As lágrimas visitam a face e a pele fica inebriada. A melancolia toma conta do corpo e você aos poucos vai ouvindo aquelas conversas de fim de tarde, com xícaras e livros na mesa da varanda. A escada desenha passos e trás de volta a ilusão daqueles que não estão mais aqui. O sorriso da menina de cachos floresce por alguns segundos e eu a vejo ali, sentada, com seu livro ao lado daquela dama que ela tanto admirava, esperando pelo homem que hoje é apenas um mito, uma lenda que não desaparece porque ela o leva consigo em suas margens. Eu o vejo chegar com seus braços abertos para onde ela salta com toda a segurança porque sabe que ele a fará voar por cima de todas as coisas demasiadamente humanas.

Mas basta uma leve distração pra tudo voltar ao vazio sem sons ou movimentos. De real, apenas o maldito carrilhão com seus sons que ultrapassam tempo e espaço. Ele assustava a menina em suas primeiras horas, depois passou a ser música para embalar uma juventude que teve suas euforias, seus dramas, decepções, mudanças. Teve tantas coisas e ele narrou a maioria delas. Hoje ele é apenas um móvel articulado que serve para despertar o que ainda resta de ilusão.

A casa está vazia e o eco dos meus passos me incomodam. Quero ir embora e dizer que não vou mais voltar, mas é mentira porque por enquanto esse cenário é tudo que eu tenho de meu. Minha história passa por aqui e essa história que me levou até você. Lembra? Você deu uma dúzia e meia de passos em minha direção e me presentou com o seu abraço. Há tempos que alguém não me abraçava porque eu não queria proximidade com humanos. Até você chegar, eu achava que eu tinha uma maldição reinando em minha derme. Mas você com seu sorriso de menino, seu abraço de homem e seu olhar canino foram ficando e hoje, não importa a distância, sempre há algo para te contar ou algo a ouvir de você…

Menina no sótão…
texto do blog Menina no Sótão

segunda-feira, 27 de junho de 2011

De Viviane para ti

(C)(P) excertos de música do álbum Viviane, de Viviane Parra

Meu Amor:
'Abri as portas e as janelas (...) Como se o sol brilhasse so para mim'

'Amou e amou cantando A sorte que tinha por ter Um coração que amando O fazia renascer'

'Saudades vividas Esperanças contidas'

'E por isso em cada muro Cada porta e cada esquina Te procuro e me procuro Por teu corpo me aventuro E o teu rosto me ilumina'

'Talvez o amor Seja tudo amar sem excepçao.'

'Neste vazio Procuro a tua voz O teu olhar, Esse jeito so teu De me falar...'

'Se vires a minha boa estrela Diz-lhe que estou a naufragar, Diz-lhe que quero muito vê-la, Que estou perdida no meio do mar'

'De nostalgias sou feito. Algum deus mo augurou!... Faço caminhos a eito, Buscando-me onde nao estou.'

'Nesta viagem Lembro-me de ti, Trago ainda as saudades Que nunca perdi.'

'Guardei na arca dos meus sonhos, Luzes e sombras, rituais, Talvez uma lanterna mágica, Em movimentos irreais, Um realejo, um arco-íris, E um tapete, voador, Um sortilégio, uma máscara, O riso de um actor.'

A.-TE

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O que é para ti uma casa?

O que é para ti uma casa? Os braços de quem amas ou o lugar onde te escondes dos dedos dos teus demónios? É a estrada que tens à frente ou a cadeira onde te sentas no final da viagem? É a tenda de um circo itinerante, um navio naufragado ou o farol levantado em terra firme? É o sítio onde vives ou a última morada para o envelhecer dos ossos? Um bocado de terra santificada ou as pedras que fazem o chão de uma revolução profana? Será uma rua sem nome, as paredes de um quarto ou a gaveta de madeira onde se acumularam pedaços de memória? É um desejo, um objecto perdido ou é essa coisa que bate dentro do teu peito? É um palco repleto de barulho e gente, um corredor silencioso ou é o som da caixa de música onde dançam dois bonecos? É a paisagem pintada na tela, o pó que cobre o teu soalho ou será o simples conforto de ter um corpo que não conhece dor?

Por detrás e para além de paredes, portas e fechaduras, as histórias de uma multidão de palhaços, dançarinos e homens simples transformam-se em canções sobre o desvanecimento, a morte, o sonho e o desejo. Quebram-se paredes que não dobram, gritam-se palavras por gastar e roda-se o mundo para o Sol.
de Susana Noronha sobre o álbum Lock de At Freddy's House.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Contrariar as Contrariedades: Clarice Lispector

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inlcusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida.

Clarice Lispector, in 'Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres'


Clarice Lispector
Brasil
[1920-1977]
Escritora

sábado, 24 de julho de 2010

"O Amor e o Poeta" - Fernando Girão

Queria escrever-te um poema de amor
que tivesse palavras como carinho, alegria, cor.
Queria eternizar-te através da minha caneta,
dizer-te o que ninguém jamais disse,
fazer-te feliz para o resto do tempo
que ainda resta, ter-te como exemplo.
Tu és o templo onde eu entro e vou rezar,
queria tanto amar-te e esquecer tudo o resto.
Publicarei manifestos para que o mundo saiba
que o amor opera milagres, que o amor tudo transforma,
que o amor só tem uma norma,
só exige que haja paixão.
O amor anda um passo adiantado
e já o poeta o mesmo não pode dizer,
o amor esquece as guerras,
o poeta fala nelas.
O amor sorri porque existe,
o poeta conta histórias tristes,
não esconde o lado escuro da vida,
põe a boca nas feridas
que fazem sofrer o mundo.
O amor é complacente dentro de um certo limite,
mas se o amor é traído
pode ser mais perigoso
do que um tigre enlouquecido
que alcança o seu caçador.
Aí então o amor
torna-se irmão do poeta
e junta-se à caneta
que escreve as palavras mais duras
e nenhum dos dois atura
essa espécie de tortura
que é ser escravo da dor.

de Fernando Girão
retirado de
http://www.fernandogirao.com/

terça-feira, 13 de julho de 2010

O milagre das rosas






























"Romance da Rainha Santa Isabel"

Peço graça com fervor
Do divino Manuel,
Para que haja de rezar
Da Rainha Santa Isabel:
Em Saragoça nascida,
Segundo a oração diz,
Foi rainha mui querida,
Mulher d’el-rei Dom Dinis;
Aos pobres socorria
Com entranhas do coração
Pois de ninguém se fiava,
Sua esmola apresentava
Com a sua própria mão.
Vindo a “santa” um dia,
Com seu regaço ocupado,
Pelo tesouro que havia,
Com el-rei eis encontrada!
«Que levais aí, Senhora?
Levo cravos e mais rosas,
Para mais nossa alegria.
Bem sei que levais dinheiro,
Segundo sois costumada;
Antes que muito me cheira,
Rosas em Janeiro,
É de maravilha achá-las!»
A Senhora
O seu regaço lhe amostrou,
Cravos e rosas achou,
Um cheiro que admirava.
«Ó rainha excelente!
Meu tesouro podeis dar,
Minha coroa empenhar
Porque tudo estou contente.»
Estando a “santa” um dia
Na sua sala sentada,
Chegou-lhe um pobre chagado,
Se o podia arremediar;
Ela lhe disse
Com palavras de amor:
«Mandarei chamar o doutor,
Que vos haja de curar.
Senhora, se queredes
Ter o vosso coração inflamado,
Deitai-me na vossa cama,
Que eu serei remediado.»
A Senhora
De pés e mãos o lavou,
Na sua cama o deitou.
Um cavaleiro, que no paço
Havia encontrado,
A el-rei tudo é contado.
Vindo el-rei muito agastado,
Com tenção de a matar,
Contra a clemência que usava;
Na cama onde repoisava
Deitar um pobre chagado.
A Senhora correu o cortinado,
Achou Jesus crucificado!
Muito chorou o rei com ele
Dos milagres, que ela tinha obrado.
Em Estremoz acabou
Em Coimbra está sepultada,
No convento que formou
De Santa Clara sagrada.

in Romanceiro e Cancioneiro Popular Português

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"Não sei se é sonho, se realidade" - Fernando Pessoa

Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se disvirtua,
Só de pensá-la cansou de pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

de 30/08/1933, Obras Completas I, Fernando Pessoa

sábado, 8 de maio de 2010

"Afinal" - Álvaro de Campos

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,
Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,
Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.

Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.
Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.
Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...
Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.
Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,
A chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!


in Álvaro de Campos, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002

quarta-feira, 10 de março de 2010

"E eis..." - Santo Agostinho

"E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e fora te buscava, errante pelas coisas tão belas que fizeste. Estavas comigo, mas eu não contigo. Distraíam-me de Ti as coisas, que não têm ser senão em Ti. Chamaste e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, refulgiste e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei e anseio por Ti; saboreei-Te e tenho fome e sede; tocaste-me e abrasei-me na Tua paz."


(Santo Agostinho in Confissões, Livro X, Cap.X,27)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Letra de "Dá-me a tua mão" - Jorge Cruz

Anda cá meu anjo
Aninhou-se um beijo
Sobre o teu cansaço
Vem passo a passo
Semear um hino
Sou o teu menino
Dá-me a tua mão

De Baguim à Ponta (dá-me a tua mão)
A história não conta (dá-me a tua mão)
Quantos foram fracos
Limpos os pratos
Dorme o tio na eira
Vai-se a vida inteira
Dá-me a tua mão

Choro com o teu riso (dá-me a tua mão)
Dizes que é preciso (dá-me a tua mão)
Tens-me no teu barco
Atira o meu arco
Se ganhares juízo
Lê o meu aviso
Dá-me a tua mão

Anda cá meu sonho (dá-me a tua mão)
Se tirares, eu ponho (dá-me a tua mão)
Vem deixar-me rouco
A pouco e pouco
Semear um hino
Sou o teu menino
Dá-me a tua mão (dá-me a tua mão)

Dá-me a tua mão (dá-me a tua mão)
Dá-me a tua mão (dá-me a tua mão)
Dá-me a tua mão (dá-me a tua mão)
Dá-me a tua mão

de Jorge Cruz old school

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Autopsicografia" - Fernando Pessoa

É este o poema, por me teres despertado a veia escrita que nos acompanha:

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração."

sábado, 28 de novembro de 2009

"Margarida" - Álvaro de Campos

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?

-Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria a tua mãe?
- (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
-Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
-Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

(Álvaro de Campos)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Carry Nation" - Álvaro de Campos

Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
Estupor americano aureolado de estrelas!
Bruxa de boa intenção...

Não lhe desfolhem rosas na campa,
Mas louros, os louros da glória
Façamos-lhe a glória e o insulto!
Bebamos à saúde da sua imortalidade
Esse vinho forte de bêbados.

Eu, que nunca fiz nada no mundo,
Eu, que nunca soube querer nem saber,
Eu, que fui sempre a ausência da minha vontade,
Eu te saúdo, mãezinha maluca, sistema sentimental!
Exemplar da aspiração humana!
Maravilha do bom gesto, duma grande vontade!

Minha Joana de Arc sem pátria!
Minha Santa Teresa humana!
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!

É no vinho que odiaste que deves ser saudada!
É com brindes gritados chorando que te canonizaremos!

Saudação de inimigo a inimigo!
Eu, tantas vezes caindo de bêbado só por não querer sentir,
Eu, embriagado tantas vezes, por não ter alma bastante,
Eu, o teu contrário,
Arranco a espada aos anjos, aos anjos que guardam o Éden,
E ergo-a em êxtase, e grito ao teu nome.

8-4-1930
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 121.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Dois excertos de odes (Fins de duas odes, naturalmente)" - Álvaro de Campos

I

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realme:nte e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

A lua começa a ser real.

II

Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!

Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Umedece interiormente o instante lento e longínquo!

Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar ...

Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a idéia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
Tu que me conheces — quem eu sou ...

Álvaro de Campos, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O som de lá

Apetece-me ir para a chuva

Porquê?

Porque não tenho sono e o som dela chama-me...

O som dela embala

sexta-feira, 26 de junho de 2009

"Amor" - Pablo Neruda (por Pedro Foncea)

Mujer, yo hubiera sido tu hijo, por beberte
la leche de los senos como de un manantial,
por mirarte y sentirte a mi lado y tenerte
en la risa de oro y la voz de cristal.
Por sentirte en mis venas como Dios en los ríos
y adorarte en los tristes huesos de polvo y cal,
porque tu ser pasara sin pena al lado mío
y saliera en la estrofa —limpio de todo mal—.

Cómo sabría amarte, mujer, cómo sabría
amarte, amarte como nadie supo jamás!
Morir y todavía
amarte más.
Y todavía
amarte más
y más.

Pablo Neruda, 1923


quinta-feira, 4 de junho de 2009

"A Mulher" - Manuel Silva Cardoso

Foste uma linda menina
Hoje uma linda mulher
Será essa a tua sina
Será como Deus quiser

Vais lutar e vais sofrer
Nasceste para criar
E também vais ter prazer
De teus filhos ensinar

A mulher tem alma nobre
E no coração a chama
Tanto faz ser rica ou pobre
Dá a vida por quem ama

As mulheres de Portugal
São tal e qual a Virgem Mãe
O seu amor sem igual
Podem crer mais ninguém tem

in Memórias em Fado - Poemas para Fado de Manuel Silva Cardoso
lançado por A.C.O.F.A. (Associação Cultural Organizadora de Festivais Amadores)